Pina Bausch
Categoria: Pina Baush - Inverno 2010Uma das maiores personalidades da dança do século XX, Pina Bausch criou com seus espetáculos uma arte total, a partir do entendimento das relações humanas, das pulsões, dos desejos e das impossibilidades. Na cena: dança, teatro, literatura, música, artes plásticas, cinema entrelaçados para trazer à tona a matéria ordinária da vida, por fora e por dentro, numa linguagem essencial, que ecoa em cada um de nós.
Philippina Bausch (1940-2009) começou sua formação aos quinze anos de idade, na escola dirigida por Kurt Jooss (1901-79), em Essen (Alemanha). Estudou na Julliard School (Nova Iorque), depois retornou à Alemanha, tornando-se solista do recém-criado Kurt Jooss Ballet. Em 1973 passou a dirigir o Tanztheater de Wuppertal, ganhando prestígio inusitado com seus espetáculos, a partir de fins da década de 70. Sua obra possui raízes na tradição do expressionismo alemão, influenciada pelo trabalho de Jooss, no que se refere à abordagem multimídia e à busca da expressão das emoções universais. Além disso, aprendeu de seu mestre lições de
“ECONOMIA DE MOVIMENTO: O MOVIMENTO SÓ DEVE SER EMPREGADO SE TIVER UM PROPÓSITO SIGNIFICATIVO QUANTO AO QUE SE QUER TRANSMITIR”.
Ela não estava interessada em como as pessoas se movem, mas no que move as pessoas.
A influência de Pina Bausch é imensa: ela está para a dança como um Pierre Boulez para a música, um Grotowski para o teatro, um Fellini e Almodóvar para o cinema. Sua presença se expande por essas áreas, indireta ou até diretamente – como no caso de Almodóvar, que utilizou uma cena da coreografia Mazurca Fogo no filme Fale com Ela.
Seu estilo coreográfico está fundado num jogo de perguntas e respostas com os bailarinos. As perguntas podem ser descritivas, pessoais ou abstratas. Bausch vai selecionando gestos, alterando a forma dos movimentos, construindo cenas e montando o grande quebra-cabeça. A tensão interna dos espetáculos é rigorosa, o tempo não está jamais entregue ao acaso, e nada do que se vê no palco é improvisado, embora tenha partido da improvisação.
Assim como todo tipo de gesto, do sofisticado ao banal, pode se integrar ao idioma da dança, também todo tipo de música cabe – de Schubert a Edith Piaf, de Haendel ao tango e a Caetano Veloso. No limite, os espetáculos tendem para a incorporação total. Um território do espírito, onde os movimentos dos bailarinos ultrapassam os limites corporais e se integram nos movimentos da música, da luz e até, por vezes, dos cenários. As ambivalências estão presentes na cena, que combinam alegria e tristeza, exuberância e redução, angústia e tranquilidade; combinam também homens e mulheres, equilibrados com maior ou menor sucesso entre o que é de dentro e o que é de fora de cada pessoa.
Nos últimos anos, ela se dedicou a observar pessoas em várias cidades: Lisboa, Roma, Austin, Budapeste, São Paulo e Tóquio, entre outras. Para cada espetáculo, a companhia fazia uma residência num lugar. As impressões dos bailarinos serviam, então, de material para a dança.
UMA CARTA DO MUNDO – VISTO NAQUELA DIMENSÃO ONDE AFETO, CORPO E MEMÓRIA VIRAM UMA COISA SÓ – CONSTRUÍDA PELO MOVIMENTO, PELAS EMOÇÕES, PELOS DESEJOS, PELOS MEDOS, PELAS POTÊNCIAS DE CADA UM, ATIVADOS PELA PERCEPÇÃO DA CULTURA DO LUGAR.
Pina se foi, e nos deixa uma marca funda de ausência e presença, uma fenda que se abre em outra direção. A força de seu trabalho se multiplica hoje como pequenas ondas, em que os movimentos explodem por dentro. Tudo ganha novos volumes e novos sentidos, lendo, relendo e treslendo sua obra. Partimos dela para chegar a alguma nova imagem de nós mesmos – alguma inspiração, outra alegria! –, como esta agora, na passarela.
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Este texto é da Inês Bogéa
Diretora da São Paulo Companhia de Dança
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