Arquivo de fevereiro, 2011

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ATHOS BULCÃO, DO INÍCIO AO FIM

Categoria: Athos Bulcão

por: Marcelo Belém

Mais que um artista modernista, muito mais que o azulejista de Brasília ou o colaborador de Oscar Niemeyer: ao longo de 70 anos de carreira, as mãos de Athos Bulcão nos ofereceram pinturas, máscaras, gravuras e fotomontagens.

Singular e múltiplo, desenhou através de sua obra um Brasil moderno, contemporâneo e independente das tendências internacionais. Por onde passou, deixou sua marca elegante e requintada, corada de uma simplicidade desconcertante. Com sensibilidade e talento, construiu uma linguagem poética de extrema universalidade, realizando, com sabedoria, uma integração entre arte e a arquitetura.

A parceria com Niemeyer rendeu uma dupla tão afinada quanto Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Jorge Amado e Caribé, Fellini e Nino Rota. Assim, Bulcão imprimiu um olhar de criança na sisudez da arquitetura modernista, humanizando o concreto.  Seus jogos geométricos têm algo de céu estrelado em noite de São João, das batalhas de confete no carnaval carioca do século passado e das formas do cerrado brasileiro.

Difícil imaginar Brasília sem seu olhar otimista, utópico e bem humorado. O aeroporto, a rodoviária, colégios, igrejas e teatros, prédios públicos e casas particulares: o artista nunca restringiu seu trabalho à luz fria das galerias e sempre expôs o resultado de seu olhar generoso nos espaços coletivos do homem comum. Com ele, a cidade planejada e marcada pelo poder se tornou galeria a céu aberto, cenário de uma obra atemporal.

Sua geometria prezava mesmo as aberturas: ele próprio pedia que não fossem fechados círculRos ou quadrados nas montagens com os desenhos de seus azulejos. Nos últimos dez anos de vida, vitimado pelo mal de Parkinson, Bulcão desenhou incessantemente na tentativa de driblar a perda dos movimentos. Menos angular, sua poética então se concentrou em registros da infância no Rio de Janeiro, lembranças de outros carnavais, amigos e amores perdidos no tempo, desenhos inacabados. As cores chapadas se diluíram em tons esmaecidos, as formas precisas cederam lugar a linhas finas e tortuosas.

O homem que deu cor, vida e humor à cidade, idealizada por Juscelino Kubitschek e Lucio Costa, morreu em 2008, aos 90 anos, desconhecido pela grande maioria dos brasileiros, deixando quase 200 obras espalhadas na capital do país. (Ronaldo Fraga)

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