Objeto não identificado - Inverno 2010
Categoria: Pina Baush - Inverno 2010 9 Comentários“O que Pina Bausch conta no palco e na plateia é um teatro que liberta todas as inibições, é festa, jogo, sonho, símbolo, recordação, antecipação, cerimônia. É um conforto que se destrói doce e insidiosamente, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza, todo esse encantamento não acabe jamais e que a vida seja assim. ” FEDERICO FELLINI
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Meu primeiro contato com a obra de Pina Bausch foi no início dos anos 1990, através de uma imagem da peça Cravos, inspirada nas ditaduras sul-americanas: uma bailarina caminhava em meio a milhares de cravos e tocava bandoneon, vigiada por cães raivosos. Essa cena foi a primeira de muitas que ficariam para sempre tatuadas em minha memória. O estranhamento que suas peças provocam jamais me abandonaria.
Bausch rompeu os limites entre dança e teatro, palco e plateia, erudito e popular.
Dançando, ela quebrava nossas pernas, mudava nossos membros de lugar, expunha nossas feridas mais ocultas, nos lembrava o quão pouco generosos somos.
Dançando, ela quebrava nossas pernas, mudava nossos membros de lugar, expunha nossas feridas mais ocultas, nos lembrava o quão pouco generosos somos.
Sensível, construiu matéria fina e única a partir de situações prosaicas e cotidianas. Desamparo, ternura, medo, saudade e luto atravessam a infância, a violência, o amor e, sobretudo, a necessidade absoluta de ser amado. Muito além da dança, Pina nos oferece um olhar para um mundo mais terno, sem fronteiras, onde o fundo da humanidade é o mesmo para todos. Ao fim de uma peça de Bausch, saíamos invariavelmente sem entender nada e entendendo tudo. Tudo daquilo que é cabeça, coração e corpo. Ao mesmo tempo.
“NÃO ME INTERESSA O MOVIMENTO DAS PESSOAS E SIM O QUE MOVIMENTA AS PESSOAS”,
dizia ela, que marcou nosso tempo como Fellini fez cinema, como Lina Bo Bardi fez arquitetura, como Rei Kawakubo faz moda, como Caetano Veloso faz música… Quando se esperava rigor, ela nos trazia um circo felliniano. Quando nos preparávamos para o circo ela armava um teatro expressionista alemão. Em todas as peças ela nos fazia esquecer ou entender que a dança estava em nada e em tudo. A relação afetuosa do seu ofício com o seu tempo aparece em suas palavras:
“UMA CARÍCIA PODE SER UM MOVIMENTO DE DANÇA”.
Serei eterno súdito.












